Perco-me no seu olhar. Custa-me a sua dor, como sendo também minha. E é sempre nos dias da minha maior confusão, da minha maior altura perdida, que ela me aparece. Aparece e eu desapareço. Dou lugar a outra que está pronta para a ouvir, para a ajudar. Oiço, muito, tudo. Converso. Sinto gritar dentro de mim o meu eu, que continua inquieto. Calo-o e continuo a ouvir. Escolho com cuidado as palavras. Deixo o silêncio aparecer, deixo-a divagar um pouco porque sei que ela não está presente. Ela está completamente perdida e só. E eu sem nada suficientemente bom para lhe dizer, para ajudar. Sem nada. Mas oiço, oiço, porque sei que é a única coisa a fazer. Toco num assunto e vejo a sua expressão, o olhar confuso e mudo de assunto. Deixo-a pegar no que quer falar, no que lhe dói na alma. Faz-se silêncio. São sempre conversas agridoce, almoços complicados de gerir. Temo sempre que ela surte de vez. E sinceramente não sei como aguenta tanta amargura desta vida. Despeço-me. Pego-lhe no rosto e dou-lhe um beijo. Digo-lhe, gosto muito de si. Deixo-a. Deixo-me para trás e voltou a ser eu, uma pessoa perdida.
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