Pensamentos Soltos

Estar num sitio, e toda a cena me parecer surreal. Toda. Olhar para a fotografia de alguém, linda, jovem e vigorosa, olhar para o lado direito e ver um caixão. Não se consegue acreditar. Ou não se quer acreditar. Sem dúvida que só vemos muitos amigos em funerais ou casamentos, é uma tristeza. Ver a dor nos outros, a perda, o desespero, reduz-nos a nada. Pior, muito pior do que a saber a sofrer durante dois anos, numa guerra constante e sem descanso, foi saber, hoje, que a pessoa que amava, a deixou nesta situação, porque já não sabia como lidar com ela. Ela a situação, ela a pessoa. E era o amor da vida dela. O AMOR DA VIDA DELA. A pessoa que ela escolheu para ter um filho. Não só sofreu no corpo, na alma, na doença, como no amor, no coração. Foi deixada. Isto juntando, à dificuldade em acreditar no que tudo estava a acontecer, só me apetece espancar alguém. Espancar mesmo. Nem houve compaixão. Nem amor. Nem amor por um filho de um ano e meio. Nem quando os médicos já tinham dito, que só um milagre, que já não havia nada a fazer. Não se faz. Não se faz a ninguém. Sofreu, ainda mais do que eu podia imaginar. Dai a revolta dos irmãos e mãe. A revolta de muitos. Não foi confortada pelo grande amor da vida dela. Já não chegava tudo o resto, não a pouparam de mais. E custa-me digerir isto. Não sou inocente, e a vida tem sido o que tem sido, e sei que cada vez mais os certos, os nossos se revelam em situações piores, situação nada agradáveis. Os ratos fogem disto. Dos problemas, das doenças dos outros. Os ratos gostam é de festa, de copos, boa vida. Isto não é gente. Não é nada. E revelarem-se assim, ainda revolta mais. Ainda dói mais. Uma coisa é certa, não merecia. Ninguém merece.

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