A Ana

Nada é por acaso e cada vez mais acredito nisso. Eu nunca iria conhecer a Ana, se não tivessem acontecido uma serie de fatores. Mas conheci. Eu não sei já disse aqui, mas eu adoro conhecer pessoas. Conhecer, saber quem elas são, as suas historias, mesmo que estejam de passagem na minha vida. Gosto de as conhecer como elas realmente são. Não gosto de bonecos montados. Não gosto de conhecer pessoas, que desenrolam o seu boneco na perfeição. Gosto sim de gente real. Gosto e interesso-me genuinamente pelas pessoas. No sábado resolvi cortar o cabelo. Por norma, quando não posso mudar algo que me incomoda, mudo algo que posso realmente fazer. Tanto pode passar por cortar o cabelo, pintar, fazer uma massagem. Qualquer coisa. Mas faço sempre algo, inesperado e fora da minha rotina diária. Sinto-me bem com isso. Liguei para a pessoa, e não tinha vaga perto de minha casa, mas que podia ir ter com ela, à Alapraia. Bem, isto não é perto de minha casa, mas também não é longe. Ela contou-me que tinham acontecido alguns imprevistos e pediu-me para ir ao outro cabeleireiro. Ok, fui. Para dar com aquilo, levei um bom tempo. Entrei no cabeleireiro, sentei-me e esperei a minha vez.  A Ana, estava a lavar a cabeça a uma senhora. A Ana tem uns 18 anos. Reparei nela, por ser tão nova e tão bem educada. Por falar baixo, uma falha minha, por saber o seu lugar, por ser preocupada com o cliente. E pensei, tão nova e com um boa postura profissional. Fiquei mais tempo à espera, vem ter comigo, explica-me que está demorado, explica que não faz sentido lavar por isto ou por aquilo, pede desculpa pela intromissão antes de perguntar algo, agradece, sorri. Depois foi a vez da Ana me lavar o cabelo. Tenho sempre o cuidado de explicar, que tenho equizema. Porque já tive um episódio infeliz. A Ana conta-me que tem psioriase. E que ela própria já sofreu muita descriminação por isso. A equizema é parecida à psioriase, com ligeiras diferenças, sendo a psioriase mais agressiva. A Ana, em miúda, foi convidada a sair de um cabeleireiro com a cabeça meia lavada, meia seca, porque acharam que tinha lendias, ou algo do género. Fala aquilo com mágoa e vergonha. Eu partilho, desse episódio com ela. A mim também me fizeram o mesmo. Foi um episódio triste, de gente que devia ser profissional, e afinal não passaram de ignorantes, porque estes problemas de pele não se pegam. Aliás tem maquinas de esterilizar todo o equipamento. Mas isto aconteceu-me há muitos anos, só tinha na cabeça e era miúda. Deixei de ir aquele sitio e segui a minha vida. A Ana, tinha psioriase em 90% do corpo. A Ana ainda hoje não supera bem o que lhe aconteceu. Faz um curso profissional, porque quer ser cabeleireira. A Ana, teve uma crise nervosa em miúda e despoletou a psioriase e espalhou-se no corpo todo. A Ana foi medicada desde muito cedo, andava sempre atordoada. Recomendaram-lhe fazer praia. A água do mar, é muito boa para a equizema e psioriase. A Ana, viu uma menina a brincar e foi brincar com ela. Apesar de ter 20 olhos em cima dela, ela não se importou. Grave, foi a mãe dessa menina, gritar-lhe para se afastar da filha e dizer-lhe que  parecia um bicho e que a filha não podia apanhar aquela doença. Se a Ana já tinha 20 olhos nela, depois daquilo ficou com todos os olhos daquela praia, em cima dela. É muito triste esta ignorância, pior, esta falta de sensibilidade. A Ana, fala com dor. Não vai a praia, e ama o mar. Não vai por vergonha. Depois deste episódio, teve de ter psicoterapia, teve de aumentar a medicação, para que a doença não afetasse a cara. A Ana contou-me que a psicóloga dela, passeava com ela. Tentava leva-la à praia. E pegava na mão dela, no braço e dizia-lhe o quanto estava melhor. A Ana, dizia-me, que só a sensação daquela pessoa não ter nojo dela, era tudo. E que graças a essa psicóloga, foi melhorando. Reduzindo a medicação. Olho bem para a Ana, olhos verdes, cabelo loiro, e não lhe noto nada na pele. A Ana, agora, só tem psioriase nos cotovelos, e um pouco na cabeça. Sente-se melhor. Mas diz que nunca mais vai praia. Tentei dizer-lhe que não deve deixar de fazer nada, nada do que gosta por outros. Porque esses outros, não querem saber da sua vida. Ela tem de tentar tirar prazer do que gosta. Expliquei-lhe que se fosse outra pessoa, também não iria à praia. Porque está escrito não sei onde, que as pessoas com peso a mais, não podem ir à praia, não é estético, não sei que não sei que mais. Está escrito que o pessoal com peso a mais, tem de estar fechado em casa. Mas eu não estou nem aí. Amo praia, amo o mar. E sou muito mais feliz no verão por isso. Até porque a minha equizema melhora. E os outros, são isso mesmo. Os outros. Que a mim não me aquecem nem me arrefecem. E ela devia fazer o mesmo. Eu adoro vestir roupa preta, mas por vezes é chato parecer que nevou. Sacudo e nem aí. Eu percebi que a vida da Ana, não é fácil, não foi fácil, e que se calhar a família não é funcional. Mas vejo-a animada com o curso dela, e com a família que ela arranjou no trabalho. E aproveitei para lhe dizer, que se sente bem, é desses que tem de se rodear. E que tem de fazer o que gosta. Se precisar de ajuda, pedir. Se não for suficiente, falar com alguém,  tomar medicação, se necessário. O importante é superar, é tentar pensar que tudo pode melhorar. E melhora. E rodear-nos dos melhores, daqueles que nos aceitam assim, como somos, o boneco imperfeito, o real. No fim, dei-lhe um beijinho, desejei-lhe o melhor. Acho que vou passar a ir à Alapraia, quero muito saber como a Ana vai, e quero fazer parte disso, e aproveitar os maravilhosos 10 minutos que ela me proporciona. Adoro que me massagem a cabeça, e nisso como no resto, é muito boa. Muito boa pessoa, e profissional.
 

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