Hoje é mais um dia, igual a todos os outros, mais um dia com o meu pai


Todos os dias estou com ele. Porque quero. Porque faço questão. Porque tenho um medo aterrador de o perder. Porque adoro estar com ele. Só tive em atenção ao facto de não estar a correr. De não comer a correr. De não conversar a correr. Levantei-me muito mais cedo. Tive tempo de ir comprar um docinho em forma de coração, comprei-lhe um postal, e simplesmente escrevi, és o melhor pai do mundo, o meu, e só meu. O resto disse-lhe, acho que se deve falar. E ele sabe. Sente. Todos os sábado, estou com ele, mesmo que sexta feira à noite vá para a rambóia e chegue a casa às sete da manha, tomo um duche e às oito estou à porta dele, conforme combinado, porque sei que aquele é o nosso tempo. Aquele pequeno almoço, aquela conversa, aquela partilha, que tanto prezamos. É sagrado. Prometido é devido. Eu nunca falho compromissos. Sempre que nos vemos damos dois beijinhos. Sempre que nos despedimos também. Não me lembro de ser de outra forma. Se alguma vez me desiludiu? sim. Se já me desiludiu. Já. Muito. O meu pai, sempre foi o meu porto seguro, que uma vez numa noite de nevoeiro, não encontrei. E fiquei à deriva, perdida. Percebi, que todos me tivessem abandonado, expecto ele. Ele, foi quem me desejou, ele é quem me compensa, equilibra a balança, a dor. Não aceitei. Mas passou. Coisas da vida. Se calhar também o decepcionei, algures nesta vida. Não vale a pena viver de coisas menos boas. Não me recordo desse único momento e nem quero viver dele, quando tenho mais de mil bons momentos. E tenho muitos e bons. Com ele perco-me em conversas boas. Conversas sem sentido. Conversas teimosas. Conversas sem sentido nenhum. Conversas que não levam a lado nenhum. Somos dois teimosos. Às vezes vejo nele uma esperança em mim. E fico triste, porque tenho um medo terrível de o desapontar. Ás vezes vejo orgulho, e penso que podia ser tão melhor e digo para mim " pai és um crente e eu sou um fracasso". Ás vezes vejo nele um miúdo sacana, malandreco, quando me conta as partidas da sua sueca. Fala a todas as pessoas. Conhece todos. Adoro ir com ele ao mercado, escolher legumes, frutas. Ensina-me tudo. Com gosto. E eu faço que não percebo (algumas coisas, não percebo mesmo), e adoro ouvir. Adoro. Viajar com ele para a terra dele, é um dos maiores prazeres da minha vida. É ver o meu pai tornar-se criança. Virar miúdo. Ri-se. Rejuvenesce. É lindo. Lá conhece todos, também. Eu acho que o que me faz feliz é ver o meu pai bem e feliz. Sempre. E Sempre que eu puder, estarei presente. Sempre. Principalmente no nosso sábado. Que é nosso, de partilha. Sou pessoa de família, de ter sentido de família, que não sendo perfeita, a sente como tal, e a defende como tal, na sua imperfeição.  Mesmo sentido que por vezes sou a única.







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